domingo, 27 de novembro de 2016

A historia de Arnaldo pt5


2008 – O ano da grande virada. Para baixo. 

O ano começou péssimo. O patrimônio chegou a cair R$ 250.000,00 em poucas semanas e as pressões em casa para vender as ações começaram a ficar mais fortes. Havia uma grande incerteza sobre alguns aspectos da economia. Arnaldo entendia um pouco melhor os termos, pois estava no segundo período de economia e já tinha estudado bastante.

Arnaldo pensou bastante sobre sua vida: um assalariado, com nenhum crescimento no emprego nos últimos 13 anos, apenas reposições da inflação, havia conseguido se tornar um milionário. Seus esforços resumiram-se a acompanhar de perto os resultados da companhia e a aportar regularmente 20% de seu salário. Não aportou outras rendas. Sua estrutura de vida continuava modesta. Alice ganhava o suficiente para ter uma vida de muito bom nível, não passava qualquer privação e ainda conseguia ajudar em casa.

Arnaldo continuava com o mesmo sistema de vida, exceto pelo Monza 1996 que já havia se tornado um Palio Weekend 2006. A resposta para o restaurante japonês ainda era a mesmo:
 - Tô duro, vamos deixar para o dia 05. Só que a réplica de Alice, agora, era:
 - Deixe que eu pago.
Seu apartamento era simples, com acabamento mais para o rústico, mas bem localizado e próprio. Não tinham filhos e seus planos para os próximos 3 anos era de manter essa situação como está. Arnaldo lembrou-se dos três primeiros anos de seu investimento. Lembrou que chegou a perder quase 50% do patrimônio e, também, que suas ações chegaram a cair mais de 65%. À época, com investimentos de R$ 12.000, não era tão assustador, mas agora... Pensou também que, se tivesse saído naquela época, talvez não tivesse nem 1/3 do que tinha guardado.

 Não tirou nada naquele janeiro fatídico de 2008. Manteve a aplicação em ações da VALE3. Pois que a bolsa, após uma mínima em meados de janeiro, quando o patrimônio chegou a cair a R$ 800.000, uma perda próxima a R$ 300.000, retomou seu movimento de alta e devolveu o milhão a ele já em fevereiro. Em abril e maio manteve seu patrimônio em torno de R$ 1.200.000.

E o mundo veio abaixo... 

Arnaldo jamais poderia ter imaginado o que ocorreria nos meses seguintes. Conheceu pela primeira vez um Circuit Breaker, que é um dispositivo anti-histeria coletiva da bolsa. Ele para o pregão por alguns minutos, quando registra queda superior a 10%. E o mundo financeiro ficou histérico. Muitas empresas sendo vendidas a preços irrisórios, menores do que suas posições de caixa.
 Em 2008 foram 6 Circuit Breakers, incluindo um duplo (10% e depois 15%). Arnaldo experimentou um sentimento muito estranho ao ver seu patrimônio cair R$ 150.000 em 3 dias. Era bem mais assustador do que quanto tinha pouco dinheiro. 

Na contramão do mercado, amplamente vendedor, Arnaldo reforçou o estudo dos relatórios e releases de resultados da VALE. Reforçou a leitura de análises independentes sobre as perspectivas para a companhia e não conseguia entender o motivo da queda tão expressiva. Pensou em usar parte de suas reservas, que ainda estavam sendo recompostas após a aquisição do apartamento, para comprar mais ações, mas seu comportamento conservador, forjado por mais de 12 anos de investimentos regulares, tinha poder quase absoluto sobre ele. E não fez nada.


 No fatídico mês de setembro de 2008 dois episódios foram especialmente desagradáveis para Arnaldo. O primeiro foi a quebra do Lehman Brothers, episódio que espalhou pânico nos mercados e trouxe turbulência ao lar de Arnaldo. Alice estava seriamente aborrecida, pois o patrimônio havia caído quase R$ 600.000 até outubro. A expressão “eu disse para vender” era ouvida, pelo menos, 2 vezes ao dia em casa.

O outro episódio foi a declaração de prejuízo com derivativos que a SADIA fez ao mercado no final daquele mês. Não era por ele, mas pelo avô. Arnaldo sabia que o avô tinha cerca de 15% de sua carteira em ações da Sadia. Ficou preocupado. Marcou um almoço com o patriarca da família para conversar sobre aquele momento terrível para a economia mundial.

- Salve Arnaldinho! Como estão os investimentos? 
Que desastre, hein! Após ouvir sobre as quedas expressivas na carteira e também sobre a preocupação do neto por conta da queda nas ações da SADIA, Seu Sandro lhe disse: 
- Meu neto, tenho quase 40 anos de bolsa. Comprava ações por telex. Levava quinze dias para comprar e quinze para vender. E sabe-se lá a que preço. Sou do tempo em que o gerente do banco tinha metas de venda de ações. O preço médio de SADIA na minha carteira é próximo a R$ 0,15. Não é necessário se preocupar comigo.
- Fico feliz em saber disso vovô. O outro problema é que Alice está muito aborrecida por eu não ter vendido as ações em janeiro. Ao menos parte delas. Mas sabe,... eu realmente estou perseguindo um objetivo, que é receber, só com os dividendos, o mesmo que recebo de salário.
 - Arnaldo, não tenho como lhe ajudar em casa, mas vou lhe contar um segredo, coisa que nem sua avó sabe. Em 1998 nós amargamos uma queda em nosso portfólio de ações de quase R$ 1 milhão. Foi duríssimo, mas não vendi, não mexi, nada fiz. No ano passado, esse mesmo portfólio rendeu R$ 634.829 só de dividendos. Minha aposentadoria do INSS deu pouco mais de R$ 25.000 no ano. 
- Vovô!!!! O que você fez para ter isso tudo????
 E voltou para casa assustado com o que o avô lhe disse...

Resumindo até 31/12/2008
156 aportes, totalizando R$ 69.966,85. Média de R$ 448,51. 
18.808 ações VALE3, R$ 19.702,54 de dividendos reinvestidos em ações, totalizando um patrimônio de R$ 520.732,17. R$ 660.000 a menos do que o topo, queda de 56,1%. 
A rentabilidade média de seu investimento ficou POSITIVA em 32,53% ao ano. Muitíssimo melhor do que todas as opções de renda fixa. Os dividendos representaram R$ 1.641/mês, quase 52% de seu salário de R$ 3.284,67.


2009 – Recuperação parcial e paz em casa 
Em pouco mais de quatro meses seu patrimônio voltou a casa dos R$ 700.000 e Alice estava mais feliz do que nunca. Mas o motivo não era a recuperação no mercado de ações, mas a descoberta, logo no início do mês Abril, de que estavam grávidos de gêmeos! Arnaldo, que já sempre fez o orçamento da casa com precisão de centavos, tratou de incluir nas projeções as mudanças financeiras que essa gravidez abençoada lhes traria. E não foi pouca mudança! Arnaldo previu, com aquela precisão de engenheiro, todos os novos gastos para 2009, 2010 e 2011. Isso mesmo, ele mantinha previsões orçamentárias para, no mínimo, 3 anos!

A situação do casal era confortável, a renda líquida dos dois ultrapassava R$ 8.500,00, sem considerar o bônus do trabalho de Arnaldo. Sem qualquer dívida, com um ótimo investimento em ações e com uma reserva de mais de R$ 85.000 investidos pelo Tesouro Direto, Arnaldo ficou muito feliz em saber que poderá dar conforto aos filhos, e anda manter sua prática de poupança.

Escolhas do passado... 
Conversando com a “só-sorrisos” futura mamãe, Arnaldo comentou que eles só estão conseguindo garantir o padrão de vida, mesmo com a chegada das gêmeas (duas meninas, isso mesmo), por conta das decisões de poupança do passado. O fato de terem apartamento próprio faz com que não tenham que pagar cerca de R$ 2.000,00 de aluguel. 

Não ter nenhuma prestação a pagar, nenhuma dívida com bancos ou financeiras e, quase sempre, pagar à vista com desconto, lhes garantia uma necessidade de renda bem menor do que o que a maioria das pessoas precisaria, para viver com o mesmo padrão. Arnaldo disse para Alice: - sei que demora para construir, às vezes a gente espera 8 meses antes de trocar a geladeira, 6 anos para trocar de carro, mas essa “paz financeira” vale o esforço.


Continua... 

Créditos: Paulo Coutinho

2 comentários:

  1. Muito bons os posts... Ansioso pela continuação.

    Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Matheus, Já saiu a parte 6 (final) corre lá para ver.

    Abraço

    ResponderExcluir